Parindo abutres

Quem nunca recebeu os vídeos, ou fotos de cadáver por whatsapp?  basta acontecer um acidente que lá estão eles com suas câmeras erguidas para gravar tudo e propagar imagens de pessoas pela rede sem se importar com as consequências que isso pode trazer para a vítima, para os familiares que recebem essas imagens e para eles próprios, afinal, isso é ilegal.  Não vamos nos ater ao fator social de falta de empatia, não é da nossa ossada discutir isso.  Mas é interessante observar como o fator violência se naturalizou ao ponto de poucas vezes nos surpreender quanto a abordagem jornalística. 

Embora a violência seja parte de da nossa sociedade desde que Caim matou Abel (ditado popular para dizer que uma coisa é muito antiga). A violência ganhou status de produto a ser consumido nos  anos 90 com a chegada do Jornalismo Policial.  O gênero que já era um fenômeno de audiência em toda a América Latina foi importado pelo SBT em 20 de maio de 1991, quando estreou o Aqui e Agora, programa jornalístico que ia ao ar de segunda a sexta, no começo da noite. Manchetes escandalosas, câmera nervosa, crimes, escândalos, assassinatos e suicídios são os ingredientes que fizeram do gênero um grande sucesso. O programa servia de escada para impulsionar a audiência do principal telejornal do SBT, o  TJ Brasil, que Boris Casoy apresentava na época. Um exemplo foi quando o Aqui e Agora, exibiu o suicídio de uma adolescente em 1993.  O que se tornou uma formula fácil de chamar a audiência que se espalhou pelo Brasil. Zapeando a TV nos fins de noite, é possível ver que as emissoras de televisão ainda fazem uso desta mesma tática. Calma! O blog continua sendo de cinema.

Aqui e Agora, SBT.

Precisamos contextualizar para entender que este gênero além de ser bom para as emissoras no quesito “audiência”, é bom também para alguns apresentadores que fazem uso da popularidade que o gênero dá para alçar outros voos, principalmente na política.  Numa rápida pesquisa no Google você encontra vários vereadores, deputados, senadores, prefeitos que ou saíram ou entraram nesta área.

Em nossa reunião de pauta  para discutir o que poderíamos abordar neste último poste, lembramos de “Bandidos na TV”, que estreou na Netflix e aborda justamente esta temática. Automaticamente me remeteu a um filme de 2014, chamada “O Abutre”. Produção que conta a história de Jeck, um ladrão que depois de testemunhar um trágico acidente, vê um homem que filma tudo e vende o material a canais de TV. Então ele adota essa atividade como sua. Munidos de uma câmara amadora e um rádio da polícia, ele decide passar suas noites atrás de fatos que possam render notícia.  Em pouco tempo, Jeck, começa a ganhar dinheiro como cinegrafista independente. O sucesso filmando cenas de crimes para alimentar o noticiário o transformou em principal fonte de imagens chocantes para telejornais sensacionalistas.  Esta busca ensandecida pela melhor imagem, pelo crime mais chocante o personagem passou a produzir imagens para gravar e vende-las.

O Abutre (2014)

A produção do estreante diretor Dan Gilroy, estimula reflexões a respeito das decisões de seus dos personagens ao mesmo tempo que desperta uma critica quanto a forma como a criminalidade é abordada nos veículos de comunicação. Para o telespectador o filme proporciona uma experiencia perturbadora para quem vive em um país com altíssimos índices de criminalidade e que naturaliza a violência em horário nobre na televisão. Embora os fatos narrados sejam verossímeis, soam incrédulos mesmo para quem é critico deste tipo de produto. Ou pelo menos parecia incrédulo. Na série “Bandidos na TV”, narra a história real de Walace de Souza, um apresentador de um programa policial no Amazonas acusado de encomendar mortes para poder mostra-las na TV. Walace, era ex-policial militar, apresentou o programa Canal Livre na TV Rio Negro, atual Band Amazonas. A atração repetia a formula criada no Aqui e Agora, humor tosco, crimes e matérias de assistência a população carente. A agilidade da equipe de reportagem que por muitas vezes chegava na cena do crime antes da polícia, rendeu ao programa a liderança de audiência na hora do almoço.  A formula de sucesso rendeu ao apresentador o uma vaga na Assembleia Legislativa do Amazonas por três mandados, 1998,2002 e 2006. Tudo ia bem para o apresentador até a prisão de um de seus sócios em 2008 que acabou entregando o esquema de mortes por encomenda e tráfico de drogas no qual o apresentador foi acusado de ser chefe. Walace foi preso e morreu em 2010, em decorrência de um problema de saúde.

Tanto o filme quanto a serie da Netflix são ambientadas num tempo antes do fenômeno internet. Isso nos leva a questionar até onde vai o limite humano para essa busca de transmissão de um caso a qualquer custo? Qual o papel a industria cinematográfica para conscientização de tais ações? Qual seria o nosso papel como meio de influência ao abordar isso a vocês?

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