Panóptico: controladores ou controlados?

A indústria cinematográfica cada dia mais surpreende os espectadores com as suas inovações e invenções. No final de 2018, a Netflix lançou com a direção de David Slade o filme Black Mirror: Bandersnatch, um filme interativo ambientado nos anos 80, no qual os espectadores podem tomar decisões pelo personagem principal, Stefan. O filme é um spin-off da série homônima Black Mirror, de autoria britânica e direitos de transmissão exclusivos da plataforma americana de streaming.

Black Mirror: Bandersnatch (2018)

O filme Bandersnatch traz a ideia de poder e interação ao espectador, uma vez que em determinadas cenas aparecem opções de ações para o personagem principal para que a audiência possa escolher qual caminho Stefan deve seguir, assim criando vários finais diferentes para o personagem. Por passar uma ideia de poder de monitoramento, a impressão que o espectador tem é de que ele pode decidir o final do filme, quando na verdade quem decide é a própria Netflix.
Propositalmente ou não, o filme reforça a frase do jornalista Andrew Lewis, que afirma que “se você não está pagando por um produto, é sinal que o produto é você”. De qual forma o filme se relaciona com essa frase? Ao assistir a saga do jovem que luta contra os próprios transtornos psicológicos, problemas de convivência com o pai e a grande culpa pela morte da sua mãe tentando criar um jogo de videogame baseado em um livro interativo chamado Bandersnatch, acreditamos que monitoramos e controlando as ações de Stefan através das interações e decisões que “tomamos” por ele, mas o que acontece, na realidade, é bem diferente.

Um fato a se considerar é que a Netflix já nos dá as duas opções de escolha prontas, ou seja, não escolhemos nada, na verdade. Mesmo que vejamos outra solução para a situação apresentada, estamos fadados a decidir apenas entre as opções que a plataforma apresenta como soluções. Outra observação sobre a interação do filme é que a depender da escolha feita entre as opções o filme volta para o momento da escolha para o espectador selecionar outra opção. Então, em suma, se fizermos a “escolha errada” teremos de voltar ao momento da escolha e escolher “certo”.

A empresa confirmou 5 possíveis finais para o filme, todos dependendo das decisões tomadas pela audiência em relação a Stefan, mas os fóruns da internet confirmam pelo menos 10 finais possíveis. O diretor do filme revelou que há vários easter eggs e cenas que podem nunca ser descobertas ou desbloqueadas. Acreditamos que usamos o produto (Bandersnatch-Stefan) sem pagar nada, mas no final das contas nós que somos usados e monitorados pela Netflix em uma teia de falsa ideia de controle que acreditamos ter sobre o personagem.
Ainda falando sobre vigilância, Foucault traz, no texto O Panoptismo, uma visão sobre um sistema diferente, para caracterizar uma “Sociedade disciplinar”, assim trazendo a definição de panóptico, que consiste em um sistema de construção que permite, de determinado ponto, avistar todo o interior do edifício. Tendo como exemplo as prisões, hospícios e etc, no qual as pessoas que ali se encontram, são vigiadas por um panóptico.
Diante desse contexto, gostaríamos de deixar o questionamento sobre o alerta que a produção faz sobre qual seria o limite para essa vigilância? Até onde somos os controladores ou controlados?

Mas agora o poder de decidir está com você. Pronto pra assistir uma das maiores produções já feitas?

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