A tecnologia e a construção narrativa

Sim, caro leitor! Que título assustador, não?  Preparados para uma aula de teoria cinematográfica? Vamos ficar devendo! Na verdade, queremos juntos fazer uma reflexão sobre como a tecnologia tem sido usada para construir uma narrativa com caráter de quase verdade. Parece meio obvio tendo em vista que o incremento tecnológico faz parte de um processo natural na vida de todos nós, e não apenas dos meios de comunicação.  O cinema mudo, por exemplo, parecia um produto voltado  ao silêncio, em 1928, para alguns produtores, o advento da sonoridade, que naquela época era feita com bandas ao vivo, transformaria a arte das imagens em um desastre.  

O Artista (2012)

Sobre isso, vale a pena assistir ao filme “O Artista”, longa-metragem francês feito em preto e branco, vencedor do Oscar de melhor filme em 2012. Vamos falar disso depois.

 O critico de cinema André Bazin, no livro, “O Cinema”, classifica a chegada do som como o nascimento de um novo cinema. “A revolução técnica introduzida pela banda sonora corresponde realmente a uma revolução estética, em outros termos, os anos de 1928 e 1930 são efetivamente os do nascimento de um novo cinema”. (André Bazin” O CINEMA”, p 67, editora Brasiliense).  Em “O que é o virtual?”, Pierre Lévy, fala do processo de virtualização das relações humanas e da arte, em sua abordagem, ele apresenta este processo como a potencialização daqui que já existe “Ora, a virtualização constitui justamente a essência, ou a ponta fina da manutenção em curso”. Trazendo esta abordagem para nosso objeto de reflexão observamos que o som não só incrementou o cinema que já existia, mas também possibilitou uma mudança na linguagem.

 Este é o ponto! A linguagem esta diretamente ligada com a evolução tecnológica, seja no som, nos efeitos sonoros, na captação, montagem, nos efeitos especiais e até na projeção deste produto finalizado.  A questão não é só a experiencia sensorial e imagética que esta tecnologia proporciona, mas sim a leitura que fazemos, a partir do incremento destes tipos de recursos na construção da história.  A verossimilhança neste aspecto é fundamental para podermos avançar na nossa reflexão. Entendendo que o expectador assimila traços e características para poder compreender o universo proposto na obra, Beth Brait no livro “A Personagem”, cita como exemplo, Indiana Jones.

Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984)

Indiana Jones é desde o começo reconhecido como mocinho, como herói que vai vencer o mal. Ele é bonito, é inteligente, é esperto detém um saber – é um arqueólogo e fala varias línguas- e está revestido, além de tudo, do mito do super-homem. Como o telespectador já assimilou todos esses traços em outras narrativas, ele identifica de imediato o herói e espera que a narrativa, assim como a personagem, o seu conhecido destino [….]. Como a narrativa transcorre dentro da formula tradicional, que seria absurdo, se o parâmetro fosse a realidade exterior à obra, torna-se coerente, torna-se verossímil. (BRAIT,1985,p.32-33)

O cinema tem buscado apresentar um conteúdo cada vez mais realista. Tanto na representação desta construção quanto na imersão do espectador neste universo. Não somente pela evolução tecnologia, mas também pelo próprio processo de virtualização que a sociedade esta inserida. Podemos observar isso na construção de algumas obras recentes do cinema que utiliza elementos de outras linguagens em obras ficcionais. Para imergir na nossa reflexão, vamos usar como exemplo o filme Atividade Paranormal.

Saga de “Atividade Paranormal” de 2007 a 2015.

Esta franquia de terror se tornou um grande sucesso de bilheteria, sua história não tem nada de surpreendente, mas a construção de sua narrativa utiliza uma característica muito comum de quem viveu a época da popularização das câmeras de baixo custo, a de se filmar. 

Neste franquia de baixíssimo custo, utiliza-se de câmeras, pretensamente não profissional para produzir sua narrativa, construindo uma atmosfera que o expectador já está acostumado a vivenciar, leva-o a imergir na narrativa como se ele tivesse participando daquela situação.

Primeiro filme da saga “Atividade Paranormal” de 2007.

 Tá, e daí?  Um dos principais destaques do roteiro é a linha tênue entre a ficção e a realidade. Onde a vivencia dos personagens, a construção da história, os recursos utilizados naquela construção estão muito mais próximos do dia a dia do expectador do que uma produção cinematográfica.  Este é o ponto! O avanço tecnológico que possibilitou o barateamento de um equipamento de filmagem, foi utilizado pelo cinema para a construção de uma história que proporciona um outro tipo de leitura daquela atmosfera.  

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